Prefeito de Itabuna, Augusto Castro (PSD)

Em 2016, ao final da gestão da então prefeita de Itajuípe, Gilka Badaró (PSB), fui para Itabuna com a missão de contribuir para a reorganização do PSB, partido que havia passado aproximadamente oito anos sem protagonismo político e sem conseguir eleger representantes para a Câmara Municipal. Passei a assessorar o presidente da legenda, Renato Costa, nas atividades partidárias. Após anos de dificuldades, conseguimos recuperar espaço político e voltar a eleger um vereador.

Naquele período, o partido inicialmente demonstrava inclinação para apoiar a candidatura do então candidato a prefeito Capitão Azevedo. Entretanto, por questões estratégicas, a direção decidiu mudar de rumo e se tornou uma das três siglas que apoiaram a candidatura de Augusto Castro.

À época, a candidatura de Augusto enfrentava incertezas. O contexto da pandemia de coronavírus e questões relacionadas à sua saúde levantavam dúvidas sobre sua capacidade de conduzir uma campanha competitiva. Ainda assim, contrariando previsões e mesmo sem apoios considerados decisivos, sua candidatura saiu vitoriosa.

Na cerimônia de posse, Augusto Castro fez uma declaração que chamou atenção: “Itabuna é uma cidade em que todas as demandas são urgentes”. A frase sintetizava um diagnóstico que qualquer cidadão atento reconhecia: problemas históricos em infraestrutura, saúde, educação, assistência social, cultura e abastecimento de água.

Era o reconhecimento de que Itabuna precisava de intervenções estruturantes e planejamento.Mas reconhecer os problemas é apenas a primeira etapa; governar é definir prioridades.

Nos primeiros anos de mandato, a administração municipal pareceu escolher outro caminho: o fortalecimento de uma agenda fortemente baseada em grandes eventos e entretenimento. A justificativa apresentada foi a de promoção da cultura e estímulo ao desenvolvimento econômico.

A questão que surge, porém, é simples: quais indicadores demonstram os efeitos concretos desses investimentos na qualidade de vida da população?Essa pergunta torna-se ainda mais pertinente quando observamos indicadores sociais do próprio município.

A forte demanda por programas sociais continua sendo uma realidade em Itabuna. A cidade mantém grande procura pelos serviços do Cadastro Único e Bolsa Família, demonstrando que a vulnerabilidade social permanece elevada. Em 2024, a prefeitura informou a inclusão de novos beneficiários após ações de busca ativa.

Na educação, os desafios também permanecem. Embora a gestão divulgue avanços em indicadores recentes, os dados mostram que a área ainda exige investimentos contínuos em infraestrutura escolar, aprendizagem e melhoria do desempenho.

A questão central não é ser contra cultura, festas ou eventos. Cultura é investimento e possui importância econômica e social. O problema surge quando a política pública parece inverter prioridades em uma cidade marcada por demandas urgentes.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando símbolos históricos da cultura local convivem com abandono ou dificuldades estruturais. Como justificar elevados investimentos em entretenimento enquanto equipamentos culturais tradicionais enfrentam problemas? Como explicar a narrativa de fortalecimento cultural diante de estruturas que ainda aguardam revitalização?

Outro aspecto que merece reflexão é o papel das instituições. Parte da imprensa local, historicamente responsável por debates importantes para a sociedade grapiúna, parece cada vez mais distante do exercício crítico e independente. Em muitos casos, a cobertura política aproxima-se mais da promoção institucional do que da fiscalização do poder público.

Na Câmara Municipal, a percepção de parte da população também aponta para uma redução do papel fiscalizador do Legislativo. O vereador, em uma democracia, existe para questionar, fiscalizar e representar interesses coletivos — não para atuar como extensão da comunicação governamental.

Quanto ao PSB, partido que ajudei a reorganizar, a sensação é de perda de identidade política. A legenda, que já buscou protagonismo e posicionamento próprio, parece ter se acomodado em espaços administrativos, abrindo mão de um debate mais amplo sobre os rumos do município.

É importante reconhecer que Augusto Castro possui capital político e capacidade administrativa para enfrentar grandes desafios. Contudo, a própria frase dita em sua posse continua atual: Itabuna permanece sendo uma cidade em que todas as demandas são urgentes.

Talvez a pergunta mais importante seja: se tudo era urgente, por que algumas prioridades ficaram para depois?

Porque, no fim, cidades não são transformadas por palcos iluminados. São transformadas quando o investimento público alcança, primeiro, aquilo que muda a vida das pessoas.

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Por: Erê

Graduado em Gestão Pública – Uniasselvi Pós-graduado em Gestão Pública Municipal – UESC MBA em Comunicação Eleitoral e Marketing Político – FacuminasMBA em Gestão Hospitalar – Faculdade Metropolitana Radialista por formação DRT/6315Membro efetivo da ABI/Nacional Apresentador do podcast Ponto X www.blogdoere.com.br

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