
O comentário feito pelo padre Zezinho, neste domingo, 28 de junho, ao final da missa, trouxe à tona uma discussão que ultrapassa diferenças religiosas, políticas ou partidárias. Trata-se de um debate sobre prioridades, identidade cultural e desenvolvimento social, tema que precisa envolver toda a sociedade itajuipense e repercutir em toda a região.
Conhecedor de diferentes realidades sociais e culturais, dentro e fora do país, o religioso chamou a atenção para questões que não podem ser reduzidas a disputas entre situação e oposição. O que está em discussão é o modelo de desenvolvimento adotado pelos municípios e a forma como os recursos públicos são utilizados.
Em diversos municípios baianos, especialmente os de menor porte e com elevados índices de vulnerabilidade social, observa-se o crescimento de grandes eventos festivos financiados pelo poder público. Embora sejam importantes para movimentar a economia local e valorizar manifestações populares, muitos desses eventos acabam sendo questionados quanto à sua efetiva relação com a identidade cultural das cidades e à participação da sociedade civil em sua construção.
Os conselhos municipais de cultura, criados justamente para garantir a participação popular e o planejamento das políticas culturais, muitas vezes não são protagonistas dessas decisões. Integrantes desses espaços relatam que, em inúmeros casos, os investimentos e as programações são definidos de forma unilateral, sem um amplo debate sobre prioridades e impactos sociais.
O questionamento não diz respeito à importância da cultura ou do entretenimento, mas à proporcionalidade dos investimentos diante da realidade econômica e social dos municípios.
Dados oficiais do Governo Federal mostram que Itajuípe possuía, em setembro de 2025, 4.026 famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, com um repasse mensal superior a R$ 2,7 milhões destinados à transferência de renda para famílias em situação de vulnerabilidade social. Os números evidenciam a relevância do programa para a economia local e, ao mesmo tempo, demonstram que uma parcela significativa da população ainda depende de políticas públicas de proteção social.
O próprio orçamento municipal de 2025 prevê recursos específicos para a gestão do Cadastro Único e do Programa Bolsa Família, reconhecendo a importância dessas ações para o atendimento da população mais vulnerável.
Diante desse cenário, surge uma reflexão legítima: quando o número de famílias dependentes de programas sociais permanece elevado, quais devem ser as prioridades do investimento público? Até que ponto grandes gastos com eventos promovem desenvolvimento econômico sustentável e melhoria efetiva da qualidade de vida da população?
Especialistas em gestão pública defendem que políticas culturais e investimentos sociais não são excludentes. O desafio consiste em encontrar equilíbrio, garantindo tanto a valorização da cultura local quanto investimentos consistentes em áreas como saúde, educação, geração de emprego, assistência social e infraestrutura.
Também é necessário avaliar, com dados e estudos, o retorno econômico dos grandes eventos. Embora possam gerar movimentação temporária no comércio e no setor de serviços, permanece o debate sobre se os benefícios produzidos justificam os elevados investimentos realizados, especialmente em municípios que ainda convivem com altos índices de vulnerabilidade social.
O alerta feito pelo padre Zezinho, portanto, deve ser entendido como um convite à reflexão coletiva. Não se trata de atacar gestores ou negar a importância da cultura, mas de promover um debate maduro sobre desenvolvimento, participação popular e prioridades públicas.
A pergunta que permanece é simples, porém fundamental: como construir um modelo de desenvolvimento que preserve a cultura local, fortaleça a economia e, ao mesmo tempo, reduza a dependência de programas sociais e melhore efetivamente a qualidade de vida da população?
Essa é uma discussão que pertence a toda a sociedade e que exige diálogo, transparência e participação democrática.
Por: Erenilson Santos (Erê)
Graduado em Gestão Pública – Uniasselvi
Pós-graduado em Gestão Pública Municipal – UESC
MBA em Comunicação Eleitoral e Marketing Político – Facuminas
MBA em Gestão Hospitalar – Faculdade Metropolitana
Membro titular do CMS (Conselho Municipal de Saúde de Itajuípe)
Membro suplente do Conselho Municipal de Cultura de Itajuípe
Sócio efetivo da ABI Nacional (Associação Brasileira de Imprensa)
Diretor da Sociedade Aliança dos Artistas e Operários de Pirangi – 95 anos.
Radialista por formação DRT/BA 6315
Apresentador do podcast Ponto X
